A
Brinquedoteca como espaço privilegiado de inclusão
Por Ingrid Fabian Cadore
Texto apresentado na jornada de estudos a Inclusão
escolar – diálogo possível do terapêutico com a educação. Mesa redonda:
A relação do brincar, da arte e da cultura com o processo de estimulação
do potencial criativo. – 12 de agosto de 2006.
“Pela oportunidade de vivenciar brincadeiras imaginativas
e criadas por elas mesmas, as crianças podem acionar os seus pensamentos
para a resolução de problemas que são importantes e significativos.
Proporcionando a brincadeira, portanto, cria-se um espaço no qual
a criança pode experimentar o mundo e interiorizar uma compreensão
particular sobre as pessoas, os sentimentos e os diversos conhecimentos”.
(Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, 1998 p.28)
Portanto, neste importante documento, a brincadeira
imaginativa e criada por ela mesma é reconhecida como uma importante
forma de:
· acionar os pensamento para a resolução de problemas significativos
e criando-se um espaço para brincadeira a criança pode:
· experiênciar o mundo
· interiorizar uma compreensão particular sobre pessoas e
· elaborar sentimentos e os diversos conhecimentos
O que é o livre brincar?
Livre brincar é aquele que tem um fim de si mesmo, pelo puro prazer
de brincar. São estas brincadeiras imaginativas e criadas por
elas mesmas, contempladas no Referencial Curricular Nacional
para Educação
Infantil (1998).
Para compreendermos este livre brincar convido a todos, para
durante um segundo se transportarem para o lugar favorito em
que brincavam
quando crianças: como era? Quem estava lá? Do que mais gostavam
de brincar?
Pois é deste brincar de que estamos falando. É um brincar em
que não há um compromisso com o:
· desempenho - cada um brinca do “seu jeito”, brinca o que
lhe vai pela alma. Diferente de uma atividade esportiva,
ou de uma
forma divertida
de se aprender a tabuada. Nem com o resultado: a criança brinca
um certo tempo, por inteira, emitindo sons e gestos, às vezes repetindo
muitas vezes a cena,
dando
um final, ou, interrompendo este brincar e passando para outra
brincadeira
ou outro compromisso. Se repetida, pode terminar de um outro
jeito, bem diferente. E é muito comum que se seja repetida,
quando o ambiente
é favorável.
É que esta brincadeira tem um significado particular,
único, para aquela criança. Ela brinca, para satisfazer a curiosidade,
experimentar, compreender do que gosta e do que não gosta, compreender
o mundo e as pessoas. O tempo todo diz de si, revela aspectos de
como pensa, de como aprende e o que sente em relação a si mesma,
aos colegas, à professora, aos pais, enfim, à vida.
Não queremos dizer que no livre-brincar não haja limites
ou regras de organização dos materiais e das crianças que estão brincando.
Como antigamente, talvez na cena que vocês evocaram a pouco, quando
se brincava em quintais e ruas, em grupos pequenos de amigos de diversas
idades, a mãe (ou outro adulto de referência) estabelecia regras
de segurança e de boa convivência, sendo chamada quando o grupo de
crianças não se entendia ou precisava de ajuda. Ela também exigia
que tudo fosse guardado nos seus lugares na hora estabelecida para
a brincadeira terminar.
Na escola, a complexidade é muito maior:
· porque a primeira compromisso da escola é com o processo de aprendizagem
do aluno;
· porque há um grande número de alunos e, ao institucionalizarmos
o livre brincar também instituímos um certo artificialismo. Se
não houver um professor ou um educador brinquedista disponível
para organizar
os lugares e o tempo- livre para as brincadeiras, negociar regras,
sugerir novas brincadeiras, enfim, se não houver um adulto que
aposte na importância deste brincar e mediar as necessidades dos
alunos,
este brincar não acontece.
Este brincar
parece mais viável quando se pensa nas crianças, alunos da pré-escola.
E depois, o aluno das primeiras séries, não precisa mais brincar
livremente? Ele já desenvolveu sua imaginação, elaborou todas
as
suas questões de vida, suas questões com a aprendizagem, suas
questões de convivência social com os outros alunos? E para frisarmos
o
tema desta palestra, este aluno do ensino fundamental já aprendeu
a conviver
com suas diferenças e conviver e interagir com outro aluno que
é diferente?
Por que brincar
e jogar livremente na escola?
O livre brincar no ensino fundamental:
· facilita e otimiza o processo de aprendizagem e
· a convivência social na escola.
Inicialmente precisamos compreender que ao lado das brincadeiras
de faz-de-conta, das histórias e dos desenhos, pouco a
pouco, os jogos de regras em grupo, podem atender:
· as necessidades de se expressar,
· elaborar sentimentos,
· aprender de um outro jeito,
· coordenar pontos de vista para se chegar num consenso,
· questionar para se aceitar a regra (diferença entre obedecer
ou aceitar uma regra).
Estou me
referindo tanto a aqueles que se joga ao ar livre, com um mínimo
de materiais, como excelentes jogos de
tabuleiro, que
se pode
jogar até mesmo na sala de aula.
É evidente
que não vamos adotar jogos de regra em grupo para que os alunos aprendam
a jogá-los. Dependendo
de como é feita
a mediação
(do professor e/ou educador brinquedista) é que estes
jogos serão recursos facilitadores não só da aprendizagem,
mas,
da elaboração
das questões emocionais e do convívio social , possibilitando
a inclusão do aluno que é diferente.
Quando penso na inclusão, penso em primeiro lugar
no aluno do ensino regular que
· “está à perigo”. Aquele aluno que está fracassando,
que ninguém mais “agüenta”, que é agressivo que perturba
os
outros, que
está a um passo de ser excluído da escola.
· aluno que tem necessidades especiais decorrentes
de uma deficiência física ou mental,
· e, em bem menor escala, o aluno com neurose grave
ou psicose. De
qualquer maneira, todos alunos, mas em particular,
os “diferentes” podem se beneficiar muito quando o brincar e jogar
são contemplados na escola com o posicionamento que foi falado anteriormente.
A
prática tem demonstrado que estes alunos conseguem
ser incluídos quando alguém da escola “aposta”
no sucesso deles. Este alguém pode
ser o professor de turma, o educador brinquedista ou outro adulto
de referencia para o aluno. E o brincar / jogar e outras atividades
lúdicas podem ser um recurso otimizador em conjunto com todas as
outras iniciativas de inclusão da escola.
Como viabilizar o livre brincar e jogar na escola?
Encontrar alternativas que resgatem o ser humano
na sua totalidade, sensível e ético, capaz de transformar
a sociedade em que vive, capaz
de produzir conhecimentos com autonomia, espírito crítico e investigativo
é a proposta que desafia não só os profissionais da educação, como
também os profissionais da saúde e das ciências sociais.
A brinquedoteca da escola pode ser um grande aliado,
um núcleo irradiador de humanidades. O educador
brinquedista é o profissional que acrescentou
à sua formação de profissional da educação uma formação específica
para poder mediar, através de brincar/jogar e utilização de outros
recursos lúdicos, as questões pertinentes ao desenvolvimento emocional,
social , físico, e da aprendizagem do aluno.
A brinquedoteca da escola é um lugar preparado para
suscitar e acolher o livre brincar, jogar, ou outra
atividade criativa do aluno. Seu
âmbito pode ser restringido ao tempo livre do aluno na escola ou,
ser muito mais abrangente, quando estiver inserida no Projeto Político
e Pedagógico da Escola.
A brinquedoteca da escola é diferente da sala de recursos, ou sala
de jogos. Este acervo de materiais é utilizado com o fim claro de
facilitar uma aprendizagem específica (ex: jogos pedagógicos).
A brinquedoteca como atividade extra-classe da escola
acolhe e atende as necessidades de brincar do aluno
( aquilo
que precisa elaborar), trabalha a integração,
auto-estima, possibilidade
de experimentar e de errar, possibilidade de criar. Auxilia na aprendizagem
não formal de conteúdos (conceitos de matemática ou de linguagem,
por ex.), propostos em jogos que nem lembram a ensino formal. Eventualmente
promove a integração de pais e professores.
A brinquedoteca inserida Projeto Político e Pedagógico
da escola (regular e especial):
- lugar privilegiado para se observar como aluno pensa e aprende,
alem de possibilitar novas formas de compreensão desse aluno , pois
ele diz de si e se revela ao brincar e jogar. Esta forma multifacetada
de entender o aluno possibilita alternativas de intervenção de todos
que atuam com ele. Ex: uma aluna, ao brincar de “faz de conta” enrola
uma mantinha e brinca com ela “como se” fosse seu bebê. Embala “seu
bebê”, emite sons ou palavras, revelando que este bebê tem um significado
que é único para esta criança.. Este ”bebê”, hipoteticamente falando,
pode ser ela mesma, pode ser um bebê que tem um significado particular
para ela, tem um valor pessoal, único para essa criança (o que na
psicanálise se chama de significante). De que bebê ela está falando?
Provàvelmente não sabemos, mas se não interferirmos ela vai brincar
de acordo com sua necessidade e se beneficiar muito com este brincar.
Enfim, se percebe que ela está simbolizando. Mas pela expressão,
ela revela que sabe que está usando uma manta para brincar que
é um bebê. Já uma criança psicótica pode até se referir ao bebê,
mas vai brincar com o bebê como um objeto concreto, ele não simboliza.
A diferença é sutil, mas uma pessoa sensível, percebe esta diferença.
Esta forma do aluno se revelar e que foi percebida pelo professor
ou educador brinquedista pode gerar novas alternativas de se atuar
com ele. - lugar onde se suscita ou fortalece vínculos: dos
alunos entre si; destes com a equipe da escola; alunos, pais e equipe
da escola e da equipe entre si. O vínculo afetivo entre os educadores
da escola, muitas vezes é suscitado ou fortalecido quando eles brincam
ou jogam juntos. Uma equipe que consegue jogar junto, também descobre
maneiras de trocar experiências e enfrentar as dificuldades. Por
ex: Como um educador brinquedista lida com a situação quando um jogador
esta “roubando” no jogo? E o professor, como lida com a questão quando
percebe que um aluno está “colando na prova?” Será que alem da via
disciplinar existe uma outra via para se lidar com esta questão?
Será que ambos (professor e educador brinquedista) poderiam definir
uma estratégia conjunta para que na vivência com jogos este aluno
possa experienciar as conseqüências de não aceitar a regra? Será
que este aluno só a prendeu a obedecer regras, sem questioná-las
e aceita-las por entender que é o melhor para todos ?
- lugar que promove a interdisciplinaridade quando
suas atividades são integradas com as propostas da escola gerando
um leque de possibilidades de inclusão. Isso requer que o educador
brinquedista seja incluído nas reuniões da escola onde se analisa
as dificuldades dos alunos, podendo contribuir com sugestões;
- lugar para se trabalhar a auto-estima positiva,
realçar competências, descobrir formas de se lidar com as diferenças.
Ex: modificar a regra do jogo para possibilitar a inclusão, modificar
o brinquedo para possibilitar o uso de alguém com uma deficiência
etc. Estas intervenções, quando feitas de maneira adequada, dizem
ao aluno que “podemos jogar juntos, apesar de nossas diferenças”.
Geralmente são percebidas pelo aluno “diferente” como acolhimento.
Isso gera, muitas vezes um sentimento de confiança em si e nos outros,
fazendo com que ele mesmo aprenda como se incluir nos outros momentos
do cotidiano escolar. Existem muitas estratégias para se incluir,
desde as mais simples como se certificar que todos os jogadores tem
o desempenho exigido, ou oferecer de “jogar junto” com o jogador
que ainda não é capaz de uma ação. Neste caso, isso é feito de maneira
natural, e o educador brinquedista estimula o jogador a jogar sozinho
em tudo o que é possível, apenas o auxilia naquela ação que ainda
não é possível. Outro exemplo de mediação: Jogo do Coelhinho Max. O que o mediador diz é muitas vezes
produz o efeito.
Como viabilizar a brinquedoteca na escola inclusiva: - um profissional da área da educação com formação
de educador brinquedista em período integral, que planeja, orienta
as atividades, acolhe a equipe da escola e capacita os colaboradores
( via de regra, estagiários voluntários).
- um local organizado para este fim, que suscite a vontade de brincar
e jogar com “cantos” temáticos e lugares definidos para se guardar
os materiais.
- outros locais da escola que, em certos horários, ficam disponibilizados
para a brinquedoteca.
Assim como a biblioteca que não atinge suas finalidades
sem a atuação de um bibliotecário, também a brinquedoteca só atinge
este nível de otimização quando dirigida por pessoa qualificada para
tal.
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