Hélio Cadore destaca a cooperação da equipe como diferencial da SERPIÁ

20/03/2009

Formado em economia e filosofia, o empresário catarinense Hélio Cadore é um dos principais responsáveis por fazer a SERPIÁ se tornar o que é hoje. Desde 2003, Cadore participou ativamente da gestão da instituição e desde 2007 é presidente do Conselho Deliberativo, o qual ajudou a criar neste mesmo ano. Em 2009, Hélio foi reeleito presidente da instituição.

Confira abaixo a entrevista com Cadore:


Como foi sua trajetória profissional antes de entrar na SERPIÁ?

Minha vida profissional está muito ligada ao SEBRAE. Eu entrei lá em 1974, e depois fui gerente, diretor-técnico e, nos últimos 18 anos, de 1990 a 2007, fui diretor-superintendente do SEBRAE no Paraná. O Sebrae tem um pouco minha cara no Paraná. Eu também fui presidente da Associação Brasileira dos SEBRAEs Estaduais (Abase) – foram dois mandatos da associação, quando tive a oportunidade de liderar o processo inicial da criação da lei geral de micro e pequenas empresas. Isso foi minha vida de 74 a 2007, 33 anos, exatamente a idade de Cristo.

Além disso, você preside também a Vitafrut. Como ela surgiu?

Comecei a Vitafrut em 1996. Sempre desejei ter um negócio, não sou muito calmo, sou agitado, empreendedor e tenho muitas idéias. Não sou muito de fazer os detalhes, mas sou de estimular as pessoas a terem idéias. Tanto no Sebrae como na Abase, tive colaboradores que põem em atividade minhas idéias. Eu motivo grupos, reúno idéias e depois tento trabalhar em cima delas. Sob certo aspecto é o que estamos fazendo aqui na SERPIÁ, criando um direcionamento estratégico aqui para 2009 a 2011, assim como fizemos em 2006, quando desenhamos o que era a missão, os principais fins estratégicos da SERPIÁ. Sempre gosto de fazer esse trabalho em grupo, ninguém faz nada sozinho. A alma das empresas, a alma das instituições é, na verdade, as pessoas. Pessoas com motivação, pessoas que acreditam, pessoas que, acima de tudo, sentem que a entidade também é delas, pois participaram da discussão de seu destino, e isso é fundamental. Isso é a grande diferença de uma empresa ou entidade em que manda quem pode e obedece quem tem juízo e de uma empresa que dá aos colaboradores a oportunidade de se manifestar. Aí eles se sentem co-autores da trajetória da empresa.  

E como isso se configura na estrutura da SERPIÁ?

Aqui na SERPIÁ, estamos seguindo a nossa missão com muita facilidade porque, lá atrás, nós construímos juntos a entidade. A equipe técnica incorporou isso, e esse é o diferencial da SERPIÁ. Eu faço meu trabalho, mas sei que meu trabalho está relacionado com o outro, se eu faço meu trabalho sozinho e não converso com o outro, não chegamos ao mesmo resultado. É aquela história: a minha parte não é o todo, mas sem minha parte o todo não se realiza. Essa interdisciplinaridade que acontece aqui na SERPIÁ é uma coisa fantástica e exige cooperação entre todas as pessoas, todos os funcionários.

O mundo empresarial é bastante diferente do terceiro setor. Como foi passar desse ambiente para a SERPIÁ? Por que se dedicar a uma entidade como a SERPIÁ?

Acho que eu tenho uma formação de cooperação, minha família era de muita cooperação. Meu pai tinha pessoas que trabalhavam em nossas propriedades e um ajudava o outro. Essa cultura, essa formação, esse valor de cooperação e solidariedade é muito forte. Acho que tive êxito na vida, pessoas como eu e você são privilegiadas. A vida nos brindou com isso, fazemos parte de uma certa elite. Então nós temos que devolver à vida o que de bom ela nos deu.  

E como você chegou à SERPIÁ?

Vi que minha esposa [a também conselheira e educadora brinquedista Ingrid Cadore] participava de um projeto que me chamou atenção. Sempre pensei: o que eu posso fazer para deixar esse mundo melhor? No SEBRAE eu tinha ajudado no apoio de micro e pequenas empresas, criar um ambiente favorável às pequenas empresas, ajudar quem quer montar um negócio. E na vida das pessoas, fora do Sebrae? Pessoas que, como no caso da SERPIÁ, são duplamente excluídas, que são pobres e tem problemas de transtornos psíquicos. Quando vi essa realidade e vi também que tinha uma equipe técnica sem experiência em gestão, pensei: “esse pessoal não vai dar conta. A equipe técnica tem uma imensa competência técnica, mas não vai dar conta da instituição”. Eles são muito competentes na parte técnica, mas para tocar a instituição, temos que ter a visão global. Então pensei: “posso dar uma contribuição na parte de gestão”. Tanto que, desde o início, em 2003, fui tesoureiro. A questão financeira sempre esteve ligada a mim.

E como foi essa contribuição?

Pude ajudar na área em que sou competente, na gestão e na aglutinação de pessoas. Tanto é que quando eu assumi a presidência da SERPIÁ, liderei um processo de mudança do estatuto para que a SERPIÁ fosse mais aberta para a sociedade, tendo um Conselho aberto, um Conselho plural, com diversas pessoas de diversas profissões, e colocando cada vez mais pessoas que tenham esse perfil aberto. Outra coisa na qual eu insisto é que tenhamos como associados pessoas que tenham os mesmos valores, a mesma filosofia da SERPIÁ. Isso é a essência de uma instituição. A gente tem que ter a crença de que podemos mudar essa realidade.

Desde quando você participa do conselho da SERPIÁ?

O conselho foi criado em 2007 quando nós mudamos o estatuto e aí sim eu assumi a presidência, sob essa condição [de que fosse criado o conselho]. Ele foi criado para criar esse contraponto, pois há gente que usa ONGs de maneira espúria. As ONGs sérias tem que se manifestar abertamente, de forma pública.

E quais os avanços desde que o conselho foi criado?

Foram vários avanços. Primeiramente, o direcionamento estratégico e a consolidação do pensamento da SERPIÁ. Segundo: a harmonização dos interesses das equipes e a administração de potenciais conflitos, a evolução para uma coesão da equipe. Hoje vejo uma equipe muito coesa. Outra coisa importante desse período foi a afirmação da SERPIÁ perante a sociedade. Hoje a SERPIÁ é muito conhecida pelo trabalho, pela seriedade e pela competência de sua equipe técnica. Outro ponto: a criação de parcerias fortes, como é o caso da FAS, no atendimento de crianças abrigadas. De novo: graças ao trabalho sério que a SERPIÁ faz. Também houve o fortalecimento do quadro de conselheiros e associados.

Com esses avanços, certamente surgiram novos desafios para a instituição. Quais são esses desafios?

Um deles é evoluir na busca de resultados qualitativos do trabalho que a Serpiá presta à sociedade. Resultados que sejam traduzidos em indicadores e divulgados. Também precisamos ampliar a vertente da geração e transmissão de conhecimento, traduzido em mais cursos, ampliando o leque de cursos, destinados tanto à geração de recursos para a SERPIÁ como a transmissão do conhecimento. E o terceiro, buscar novas parcerias e novas fontes de recursos para assegurar a perenidade e a estabilidade financeira da SERPIÁ. E, lógico, tenho uma preocupação pessoal como presidente de ter dentro do quadro de associados e conselheiros pessoas que possam me suceder. Pensar no processo de sucessão no âmbito da presidência, vice-presidência, conselhos, para que a SERPIÁ seja duradoura. As pessoas podem passar, mas a SERPIÁ tem que ser uma entidade crescente e perene. Por isso estou procurando novos associados dentro daquele perfil que já te falei.

Como você vê, no Brasil, a atuação do terceiro setor? A presença de ONGs corruptas atrapalha muito o trabalho das instituições sérias e dedicadas como a SERPIÁ?

O terceiro setor tem muitas entidades extremamente sérias, competentes, que estão realizando um trabalho fantástico. Infelizmente, isso não dá primeira página. Existem, sim, como em todos os setores, quem se aproveite dessas facilidades e até de uma certa falta de fiscalização, para não só criar ONGs para entender interesses pessoais, e não públicos, como também para usar os recursos para finalidades escusas. Agora, com certeza, se for fazer um levantamento em todo o Brasil, a imensa maioria das ONGs está fazendo um trabalho sério.  

E como o poder público poderia agir quanto essas ONGs?

O que imagino que seja a solução: exigir de todas transparência, que divulguem seus trabalhos, seus orçamentos, sob pena de não receber recursos. Mas para isso é necessário que elas não sejam entidades de apadrinhados do poder público. O maior desvio são entidades criadas por quem está ligado ao setor público, seja no legislativo ou no executivo, esse tráfico de influência entre o setor público e o privado faz com que prosperem essas instituições.

Como o setor privado se coloca diante das ONGs? É difícil sensibilizar as empresas?

Primeiramente, existem muitas empresas que já tem seus projetos próprios. Via de regra, as grandes empresas estão sensibilizadas para a doação. Agora, há um número muito grande de empresas menos sensíveis a isso tudo. Elas deixam de tirar um recurso que nem é delas, é do governo, que está abrindo mão de uma porcentagem do imposto devido para essas entidades. Agora, em função desses noticiários sobre desvios de recursos, muitos empresários que estavam sensibilizados tem um argumento a mais para não doar.

E a questão da receita? Influencia nesse quadro também?

Estive pessoalmente conversando com a superintendência da Receita Federal e quando houve problemas de empresas que fizeram doações e foram glosados, não foi pela doação em si. Foi por terem feito doações de uma maneira incorreta, diretamente para a empresa e sem passar por um fundo ou conselho, ou porque essas empresas já tinham problemas de outra ordem com a receita federal. Hoje eu não posso doar diretamente e abater do imposto de renda, isso mudou, tenho que passar por um conselho municipal [em Curitiba, é o COMTIBA]. Muita gente fazia recibos falsos e dizia que tinha feito doações para entidades. Por isso a receita, com propriedade, fez isso: o recurso tem que passar por um fundo que então é destinado a uma entidade. A SERPIÁ, por exemplo, mandou um projeto, o conselho do fundo analisou e aprovou, e então ele repassa esses recursos que devem ser aplicados exatamente como diz o projeto. Depois, a entidade presta contas. Aí sim fica redondo. Então não é o modelo que está errado, é a falta de fiscalização.

E o que você recomendaria aos empresários na hora de doar recursos para uma instituição do Terceiro Setor?

Só coloquem recursos em entidades que eles conheçam e das quais eles recebam relatórios, informações e prestação de Contas. No caso da Serpiá, todos os balanços financeiros e relatórios de atividades estão divulgados no seu Site, de forma absolutamente transparente. Mas, não deixem de fazer suas contribuições pois é dessa forma que tantas entidades sérias  do  terceiro setor conseguem executar seu trabalho social. E essas doações dedutíveis do Imposto de Renda estão amparadas na Legislação (Instrução Normativa SRF no.267/02). Essa estória de que a Receita fica de marcação em quem , pessoa física ou jurídica, doa a entidades do terceiro setor, carece de fundamento e é disseminada por pessoas desinformadas ou mal intencionadas.

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