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"O nosso dia-a-dia na clínica é de pesquisa", afirma Maria Aparecida de Luna Pedrosa
20/03/2009
Nascida
em Ponta Grossa, a psicóloga Maria Aparecida de Luna Pedrosa fez
um longo percurso no campo da Psicanálise, participando de
grupos de estudo. Na sua experiência acadêmica como
professora do Curso de Psicologia da UFPR, criou o primeiro curso de
especialização em Psicanálise e Clínica. Do
mesmo, teve participação na fundação da
Sociedade Paranaense de Medicina Psicossomática,
experiência que adveio em razão do trabalho de
médicos na área da Clinica Médica. Hoje é
conselheira e foi uma das fundadoras da SERPIÁ. Neste ano,
assumiu a Coordenação de Pesquisa e Transmissão de
conhecimento e a vice-presidência da instituição.
Confira abaixo a entrevista com Maria Aparecida:
Como surgiu seu interesse pela psicanálise?
Uma história longa. Fui tomada por alguma coisa que mais tarde
fui verificar que dizia respeito ao homem e seu psiquismo, e o
campo tratado pela Psicanálise pode dar lugar àquelas
questões. Eu tinha naquela época treze anos de idade. Era
1964, período da ditadura militar, e tudo o que dizia respeito a
criticas ao campo social e suas políticas era visto como de
certo modo subversivo. Ao assistir uma aula de
Organização Social, quando o professor falava sobre
a importância do trabalho e do trabalhador, das
relações de trabalho, sobre as razões subjetivas
do homem, me perguntava sobre o que eram as
motivações no homem, e o que eram os direitos do homem e
do trabalhador, e qual seria a verdadeira luta do homem para sua
existência. Frente às questões o professor responde
que haviam questões de ordem política e outras muito
particulares de cada individuo que o faziam agir. E ficou por
aí. No dia seguinte, esse professor me encontrou no corredor e
disse: vou te dar um presente, e entregou-me o livro “Encontro de
Marx e Freud”, de Eric Fromm. Comecei a ler o livro, e jovem
demais, imatura ainda. Fiquei, no entanto, encantada com as
relações que Fromm apontava sobre a relação
do homem com as suas satisfações. O que fazia e deixava
de fazer. E como as circunstâncias do campo social, cultura e
política contribuíam para as escolhas. Estas
idéias ficaram meu mundo de fantasias na época, e a
partir daí passei a procurar tudo o que se relacionava a
psicologia.
E a partir daí, qual foi o trajeto?
Vendo meu interesse no campo da Psicologia e talvez da
Sociologia, me mudei para Curitiba, com a família, em 1968. O
Curso de Psicologia estava sendo aberto e iniciado na então
Faculdade Católica do Paraná, hoje PUC. E o curso de
Ciências Sociais, na época, foi fechado em razão da
ditadura militar. Fiz o Curso de Psicologia, compus a segunda turma de
alunos. Durante o curso, sempre estive envolvida pelas questões
trazidas pela psicanálise, psiquiatria, e li os primeiros textos
de Freud nesse tempo. Minha formatura foi em 74. Janeiro de 1975 fiz
concurso para a Reabilitação Profissional do INPS, fiquei
nesse serviço até fins de 1978, quando entrei como
professora na UFPR no curso de Psicologia. Desde 1975 me iniciei em
grupos de estudo e supervisões com Di Loretto, psiquiatra e
psicanalista de São Paulo, que trabalhava com
diagnósticos em estudos de caso e tratamento de crianças
e adolescentes. Em 76, ele começou a trazer psicoterapeutas para
dar supervisão em psicoterapia com crianças e
adolescentes. Todos eles, em processo de formação em
São Paulo. Também freqüentava algumas aulas de
Amélia Vasconcelos, responsável pela
iniciação de muitos analistas da cidade, com vinvulo a
IPA. Em 77 chegou a Curitiba Antônio Godino Cabas que iniciou a
abertura de grupos de estudo, onde aprofundei meu percurso sobre a obra
de Freud e na seqüência textos de Lacan. Acompanhei estes
grupos, segui os trabalhos nessa via por muitos anos, assim como tive
breve passagem por grupo com colegas que hoje se formaram na IPA,
inclusive participando da vinda do primeiro analista didata da IPA a
Curitiba, dr. José de Oliveira Pereira com quem fiz minha
análise didática. Segui, no entanto, as trilhas deixadas
por Lacan, sem deixar jamais os ensinamentos de Freud.
De quais projetos você estava participando antes da formação da SERPIÁ?
Sempre estive envolvida em projetos de criação de cursos
e serviços em Curitiba. Por exemplo: o primeiro serviço
de Psicologia Hospitalar do Pequeno Príncipe foi se
desenvolvendo a partir de algumas supervisões ao grupo que
constitui este serviço em Curitiba e que hoje dirige o Instituto
Pequeno Príncipe, grupo que respeito imensamente. Participei com
outros colegas da elaboração do primeiro curso sobre
gestão prisional, a convite do Ministério da
Justiça, na UFPR. Assim como tive breve
participação com idéias primeiramente na
SERPIÁ que se instalou no Hospital Dom Alberto, e na
seqüência separando-se. Acompanhei a fundação
da ONG SERPIÁ, ao lado de Maria Carolina Serafim. Em todos os
investimentos de formação e aperfeiçoamento
profissional, estive atenta às questões da clinica e da
Psicanálise especialmente preocupada com a
preservação de tão importante campo de
formação e aplicação, atenta para fazer
frente aos movimentos que banalizam a pratica psicanalistica, e a
formação .
Como foi a fundação da SERPIÁ? De onde surgiu o projeto?
Encaro que tive uma participação muito tímida na
fundação da SERPIÁ. Anteriormente à
SERPIÁ, trabalhei com idéias sobre projetos juntamente
com a doutora Maria Carolina Serafim, psiquiatra, e de fato a geradora
da concepção SERPIÁ. Ela, juntamente com Ingrid
Cadore e Verônica Fleith, deram inicio aos trabalhos com
crianças e adolescentes, primeiramente funcionando no Hospital
Dom Alberto como citei acima . Com a descontinuidade deste trabalho no
Hospital veio a idéia de se criar a ONG. A idéia e o
projeto da SERPIÁ são anteriores à
fundação da instituição como ONG.
E qual foi a sua participação essa transição, de um projeto para uma ONG?
Minha participação foi mais no sentido de pensar o
funcionamento da instituição nos atendimentos. Depois me
afastei por algum tempo da SERPIÁ em razão de estar
ocupada com a formação do curso de psicologia do Dom
Bosco. Quando sai de lá, voltei a ter aos poucos contato com a
SERPIÁ. Para mim, a instituição teve um
desenvolvimento importante com a direção da doutora Maria
Carolina, acompanhada por Verônica Fleith, psicóloga e
praticante da Psicanalise, por Regina Titotto Castanharo, terapeuta
ocupacional, Ingrid Cadore, educadora brinquedista, Maria Augusta
Mendonça, psicóloga e praticante da Psicanálise, e
de Suely Poitevin, que deu inicio a trabalhos com projetos de
atendimento junto à FAS (Fundação de
Ação Social de Curitiba).
Como foi voltar para a SERPIÁ?
Com mudanças de funcionamento diretivo na
instituição me vi frente a demanda para a
trabalhar, e estar mais presente com a equipe. Assim, passei a estar
mais presente, ouvindo e orientando, outras vezes supervisionando o
trabalho, e disto passamos a ter maior implicação,
envolvimento dos profissionais e estagiários e mesmo
voluntários. Neste sentido, comecei então a ouvir a
equipe interdisciplinar, caminhamos no sentido de manter os
serviços e atendimentos, incentivando a abertura de
convênios e projetos. Hoje eu diria que a minha
preocupação com a SERPIÁ é cuidar da
formação dos profissionais, e dos processos que envolvem
a gestão e funcionamento da instituição,
permitindo que a mesma siga com sua missão. Propus-me a ser uma
facilitadora, na medida do possível, desse trabalho de abertura
das questões sobre a formação profissional e a
prestação de serviços na área da
Saúde Mental.
E como vem sendo essa formação na SERPIÁ?
A equipe da SERPIÁ é muito jovem. É uma equipe que
está aprendendo com a intervenção. Então,
é uma equipe que ainda está em desenvolvimento. Mesmo
aqueles que têm um percurso profissional maior, de alguns anos,
diria que também se mantêm em formação.
Não existe profissional pronto.
Em que pontos a equipe ainda precisa avançar na produção do conhecimento?
No trabalho, o que se faz é produzir conhecimento. Isso é
parte da tal “experiência” Então, precisamos
desenvolver a crítica sobre o conhecimento produzido de modo a
poder tornar público, compartilhar esse conhecimento.
Como surgiu a Coordenação de Pesquisa e Transmissão de conhecimento?
Eu pedi essa coordenação. Coordenar implica em você
ter algum tipo de monitoramento do trabalho, de modo a poder integrar
as atividades. Então, coordenar a pesquisa é algo que faz
parte da nossa ação e intervenção. O nosso
dia-a-dia na clínica é de pesquisa. A
formação é uma conseqüência do
investimento no trabalho que cada um realiza.
Dentro dessa proposta, como devem funcionar os cursos promovidos pela SERPIÁ?
Os cursos são pensados para que tragam referências para
esses jovens profissionais como contribuição para sua
formação. O curso não forma, quem se forma
é a pessoa, o curso traz, na verdade, referências.
Qual a importância de ter alguém envolvido diretamente com a equipe no Conselho Deliberativo da SERPIÁ?
Estar mais próxima do funcionamento das equipes me dá uma
medida para avaliar o andamento e o desenvolvimento da
organização como um todo. Isso permite que você
possa contar com referências confiáveis para transmitir ao
Conselho o que está ocorrendo e que caminhos ou encaminhamentos
podemos fazer de modo a manter e sustentar a Missão e a
instituição..
E quais serão os desafios da próxima gestão da SERPIÁ, da qual você é vice-presidente?
Oferecer à SERPIÁ vias de sustentar-se por conta
própria. O que não significa romper com laços e
convênios. Que a prestação de serviços possa
atender ao campo público e ao campo privado, de uma forma ampla.
Aprendemos na nossa ação, e aprendemos como gerir essa
ação. Logo podemos contar a quem nos procurar sobre essa
experiência. Assim podemos estar na transmissão. E esse
é o valor que adquirimos.
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